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09/10/2020 - Pecuária

Falta de gado e alta da arroba criam queda de braço pelo preço da carne


A desaceleração da economia brasileira em pleno ciclo de alta da pecuária tem colocado os frigoríficos brasileiros num impasse difícil de ser contornado. Com a arroba bovina em patamares recordes e enfrentando dificuldades de originar animais, a interrupção temporária das operações de algumas unidades nas últimas semanas revela um esforço da indústria para conter o aperto nas margens neste segundo semestre, quando enfrenta também queda no preço médio recebido pelas exportações.

“O cenário que a gente tem hoje para indústria frigorífica, principalmente pra quem trabalha com mercado interno, é que ele está pagando cada vez mais caro sem conseguir repassar esse aumento vertiginoso para a carne no atacado”, aponta Yago Travagini Ferreira, analista da Agrifatto Consultoria, ao lembrar que o resultado das exportações já não é o mesmo do primeiro semestre. “Tínhamos um dólar elevado por conta da pandemia e, ao mesmo tempo, uma demanda chinesa muito forte. Além disso, naquele período, o preço do boi não tinha subido. Agora, o preço do boi subiu enquanto o preço da exportação está estagnado”, destaca.

Enquanto o indicador do boi gordo calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) acumula alta de mais de 24% no mercado interno, o preço médio recebido pela indústria com a exportação caiu de US$ 4,9 mil a tonelada em janeiro para US$ 3,9 mil em agosto - desvalorização de mais de 20%.  No caso do boi exportado para a China, que exige animais mais jovens, essa queda foi ainda maior, de 27,6%. 

“A indústria continua pagando por uma matéria-prima mais cara no mercado doméstico, mas, quando ela vai exportar, enfrenta esse preço médio em dólar sendo pressionado”, destaca Wagner Yanaguizawa, analista de mercado de proteína animal do Rabobank no Brasil.

Demanda em queda
Com base nos dados de abate e da balança comercial do setor, o banco estima uma queda de 9% na demanda doméstica este ano, o que deve ter impacto direto sobre o resultado do setor. “Para quem produz para o mercado doméstico, estamos vendo uma redução de consumo e isso não tem como resultar em melhores margens”, explica Yanaguizawa.

Com uma menor demanda, reflexo da perda de renda da população após a pandemia de Covid-19, os preços da carne bovina no atacado e no varejo paulista, principal mercado consumidor do país, eles acumulam alta de menos de 6%.

“O consumidor tem que aceitar os preços mais altos ou a indústria vai simplesmente parar de comprar, porque praticamente não tem margem mais no boi casado”, observa Cesar de Castro Alves, consultor de agronegócio do Itaú BBA. Ele explica que o preço do quilo da carcaça bovina cotado acima do preço de venda da carne no atacado e no varejo não significa, necessariamente que as empresas estejam tendo prejuízo, mas indica bem a situação pela qual o mercado está passando.

“Se a carne não subir mais, o boi dificilmente vai subir. Mas eu nao sei se isso tem espaço para acontecer com um consumo per capta tão baixo”, pontua Alves ao lembrar que o último trimestre do ano é, sazonalmente, um período de alta nos preços.

Nesse sentido, as férias coletivas são mais um esforço da indústria para reequilibrar os preços. “As indústrias que têm proximidade geográfica de plantas e conseguem redirecionar o abate fechando uma para reduzir custo fixo sem impactar na capacidade de processamento realmente estão fazendo isso. É algo que assusta um pouco, mas muito comum de acontecer em momentos de baixa oferta de animais para reduzir custos”, explica Yanaguizawa, do Rabobank.

“Seria uma forma de o mercado se ajustar a uma nova realidade, seja pressionando o valor da arroba pelo menor processamento seja para aumentar o valor da carne pela escassez do produto”, completa Ferreira, da Agrifatto.

Queda de braço
No campo, por sua vez, os pecuaristas afirmam não ter condições de receber menos pelo arroba. “Claro que uma arroba de R$ 260 sugere resultados expressivos quando comparado ao ano passado, quando estava em R$ 160, mas ao mesmo tempo que houve esse aumento da arroba, houve aumento dos custos de reposição, que é o principal custo do recriador e do terminador”, explica Ricardo Nissen, assessor técnico da Comissão Nacional de Bovinocultura de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

No ano, o indicador do bezerro no Mato Grosso do Sul, calculado pela Esalq/BM&F Bovespa, acumula alta de mais de 50%. Soma-se a isso a valorização de outros itens que compõem o custo da atividade, como milho e soja. “A margem não está aquela maravilha que todo mundo imagina só porque o preço está alto e a essa baixa disponibilidade mostra isso. Se as margens estivessem boas, com certeza teríamos muito mais produtor engajado em produzir e acelerar sua terminação”, aponta Nissen. 

"O consumidor tem que aceitar os preços mais altos ou a indústria vai simplesmente parar de comprar, porque praticamente não tem margem mais no boi casado", diz Cesar de Castro Alves, analista do ItaúBBA

Com o final do período seco nos próximos meses, a expectativa é de que a oferta de gado a pasto, que responde por mais de 80% da produção nacional, só chegue ao mercado em dezembro. “Dezembro não é um divisor de águas. A partir de dezembro pode começar a ter mais oferta porque até lá, supondo que as chuvas vão começar agora. Mas esse alívio vai ser muito relativizado pelo ciclo pecuário e não vais er muito diferente do que foi ao longo deste ano”, destaca Alves, do ItaúBBA.

Com preço recorde e consumo doméstico em queda, o analista afirma que o espaço para alta da carne bovina no atacado e no varejo é incerta. “Não me surpreenderia se os preços subirem mais, mas há muita incerteza por conta do nível de preços que está e do momento ruim da economia como um todo”, pontua, ao alertar para o risco de a arroba bovina subir mais do que a carne, agravando a situação atual.

“Já está evidente que estamos chegando próximo desse limite e novas altas vão depender do fator China, já que a nossa demanda interna já está clara para a indústria”, completa Wagner Yanaguizawa, do Rabobank.

Por Cleyton Vilarino
Fonte: Globo Rural




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