Notícias

10/12/2020 - Soja

Preocupados com clima, produtores veem incertezas na safra em Mato Grosso


A lavoura de soja da Fazenda Concórdia, em Nova Ubiratã (MT), dá uma ideia do efeito da irregularidade de chuva sobre a safra 2020/2021 no Mato Grosso. Na área irrigada, a soja está mais alta e há mais vagens. No sequeiro, plantas mais baixas e com menos vagens.

“É clara a diferença no desenvolvimento de vagens e o tamanho da planta. É uma diferença de cerca de 30% na produção comparando o pivô com a soja fora do pivô. No pivô, a gente consegue introduzir a água quando a plantação necessitar. Fora, a gente depende do tempo”, explica o produtor Nathan Belusso.

A área de plantio da fazenda tem 2,5 mil hectares, além de uma reserva vegetal. A estrutura inclui silos com capacidade para guardar de 30% a 40% da produção e paineis de energia solar. Há também dois pivôs de irrigação, cada um cobrindo 211 hectares. Investimentos feitos ao longo das últimas safras e com planos de expansão.

A parte irrigada onde agora tem soja, depois da colheita, prevista para janeiro, deve receber arroz e, na sequência, feijão, explica o produtor. Para as áreas de sequeiro, como o plantio da oleaginosa atrasou, não deve ter janela para plantar tudo o que pretendia de milho. 

Na safra passada, ele conseguiu semear toda a área prevista para o cereal. Para este ciclo, deve reduzir em cerca de 20%. A saída para a parcela de terreno que ficar fora será plantar culturas como braquiária ou crotalária, visando manter a rotação e melhorando a qualidade do solo.

“Em relação a outros anos, a chuva está muito abaixo. O desenvolvimento do plantio deste ano para o ano passado dá uma diferença de 20 dias. Isso afeta diretamente a produção do milho safrinha na região”, lamenta Belusso.

Atraso e replantio
De acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), até o dia 4 de dezembro, o plantio de soja em Mato Grosso tinha atingido 99,92% da área reservada para a cultura nesta safra, praticamente estável em relação à mesma época no ano passado (99,95%). Mas a implantação das lavouras neste ano foi marcada por dificuldades provocadas pelas condições climáticas desfavoráveis.

Até o dia 16 de outubro, o Imea registrava a semeadura de 8,19% da área. Na mesma época, em 2019, as plantadeiras já tinham percorrido 41,80%. No dia 23 de outubro de 2020, a proporção saltou para 24,87%. Apesar do avanço, estava ainda bem atrás dos 64,5% do ano passado.

Em 30 de outubro, o Imea registrava 53,9% de área de soja plantada no Estado, proporção que saltou para 83,24% da área em uma semana, conforme relatado pelo instituto no boletim de semeadura referente ao dia 6 de novembro. Em 13 de novembro, a proporção chegou a 94,06% do total previsto.

Na segunda-feira (30/11), em seu boletim semanal sobre o mercado de soja, o Imea destacou que a falta de umidade do solo levou à necessidade de replantio de 2,51% da área estimada para a soja nesta safra. A região mais crítica, segundo o Instituto, é a oeste, com expectativa de 5,75% de replantio. Norte e nordeste sofreram menos, segundo os técnicos. 

Em sua sexta estimativa para a safra do Estado, o Imea manteve a projeção de área de soja para a safra 2020/2021 em 10,30 milhões de hectares, 3,18% a mais do que na temporada passada. Mas revisou de 35,868 milhões para 35,489 milhões de toneladas a previsão de colheita, um crescimento de apenas 0,24% na comparação com 2019/2020.

Pelo menos na fazenda da família Belusso, não houve necessidade de replantar, garante Nathan, embora ele já não descarte a possibilidade de perdas por conta da falta de chuvas. A cada dia sem cair água sobre as lavouras, a preocupação aumenta. 

“A fase de enchimento de grão é a que mais demanda água. Não vou ter replantio, mas, a cada dia sem chuva, o que tenho é perda de produtividade. Só se chover bem no desenvolvimento das plantas para recuperar, mas é difícil”, acrescenta.

Ele ainda planeja plantar mais soja nesta safra. Debaixo do segundo pivô de irrigação da fazenda, está uma plantação de arroz. Nathan conta que o costume era plantar em janeiro, mas, desta vez, antecipou por conta dos altos preços do cereal. Começa a colher ainda neste mês. Depois, deve entrar com a oleaginosa.

“Geralmente, plantamos soja no pivô, mas decidimos antecipar o arroz para aproveitarmos essa alta e, consequentemente, ter uma rentabilidade maior. Posteriormente à safra do arroz, vamos implementar a soja em dezembro ainda, dentro da janela permitida por lei, e, após a soja, vamos cultivar feijão”, resume.

Comercialização e logística
Ex-presidente do Sindicato Rural de Sorriso (MT) e agricultor no município, Tiago Stefanello reforça o cenário de preocupação. “Tivemos um atraso significativo em relação ao ano passado, de 15 a 20 dias no plantio. Não é garantia de que vamos ter uma boa safra”, diz, também ressaltando a piora das condições das lavouras a cada dia que ficam sem chuva. 

Stefanello conta que, em sua fazenda, também tem áreas de sequeiro e irrigadas. “A diferença na minha área irrigada e não irrigada é de 22 dias de atraso no plantio. Vai dar atraso na colheita e no plantio de milho safrinha. É uma realidade meio que geral aqui na região”, lamenta.

A situação preocupa em meio a um cenário de alto nível de comercialização antecipada da safra 2020/2021 em Mato Grosso. Um reflexo da forte demanda, preços elevados e taxa de câmbio, que tornou o produto brasileiro mais competitivo no mercado internacional.

Os dados mais atualizados do Imea apontam que o comprometimento da produção que está no campo chegou a 66,45%. Na mesma época no ciclo passado, a proporção estava em 51,12% do previsto. No milho, que ainda vai ser plantado depois da soja, a venda antecipada chegou a 62,69% do previsto. Nessa mesma época no ano passado, eram 51,62%.

“O produtor já limitou um volume significativo dessa safrinha, tanto na troca de adubo como na compra de semente, contas diversas. O produtor vai ter que plantar e muitos vão plantar fora de época. Preocupa porque é um risco”, alerta Stefanello.

Ele avalia ainda que a tendência é da colheita da soja se concentrar em fevereiro, o que pode ocorrer de forma rápida se o tempo colaborar e favorecer o trabalho de campo. Mas o produtor deve ficar atento. 

“Preocupa-nos devido à fila nos armazéns, no escoamento da produção para o arco norte e para o arco sul. Mas os produtores fazem negócios para serem honrados. Vamos aguardar o desenvolvimento para ver o quanto terá em janeiro. Aí sim, em fevereiro, o grande volume de produção na região fazendo com que os produtores honrem seus compromissos”, analisa.

Nathan Belusso reforça a perspectiva de gargalo logístico. “Lavouras vão chegar juntas na colheita. Consequentemente, vamos precisar de logística para armazenar e transportar esses grãos aos portos e indústrias para onde são destinados”, avalia. 

Ele critica ainda o que avalia ser excesso de burocracia para implantação de estruturas de armazenagem nas propriedades rurais, que possibilitariam ao agricultor ter uma melhor gestão da sua produção. Ressalta que, diante da situação, muitos produtores ficam dependentes de tradings e companhias de armazéns gerais.

“O produtor sofre com filas gigantescas, classificação e, às vezes, não consegue retirar sua lavoura na hora ideal. Por isso, demandamos muito que o governo faça uma desburocratização e a liberação dos recursos para o produtor ter armazém dentro da propriedade, ser o dono do seu grão e fazer o manejo ideal da sua safra”, diz.

Por Raphael Salomão
Fonte: Globo Rural - http://tempuri.org/tempuri.html




Mantenha-se atualizado com o Agro KLFF

Cadastre-se e recebe diariamente as novidades do mercado

2016 Portal KLFF. Todos os direitos reservados.

Termos de uso. Política de privacidade.