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21/12/2020 - Outros

Uma nova geração de agricultores quer assumir as propriedades dos pais na Serra gaúcha


Mãos ásperas e calejadas, com a terra impregnada à impressão digital. O vigor de um corpo que trabalha de segunda a segunda, 365 dias por ano, entre o amanhecer e o anoitecer, sejam dias de sol ou chuva. Vida dedicada a preparar a terra, semear, ver brotar e cuidar, quase em uma vigília de rigor religioso. Tudo em nome dos frutos, que maduros, alimentam outras tantas vidas. 

A agricultura sustenta famílias com seus frutos comercializados há mais de um século na Serra. Entre tantos desafios que a atividade impõe, há um que tem consumido dias e noites mal dormidas de muitos produtores. Na linguagem da colônia, os agricultores se perguntam: “Quem vai tocar essa propriedade quando eu morrer?” A sucessão das propriedades familiares é o maior desafio pelo qual passam os pais desses jovens que moram no interior. 

– Me diz, qual é o gringo que não reclama? Eu trabalho de domingo a domingo desde que me conheço. E já era assim na época do meu pai. Se nós não reclamarmos então alguma coisa está errada – diverte-se o agricultor e técnico em enologia Jorge Luis Mariani, 49 anos, morador de Garibaldi, cuja propriedade fica no Vale dos Vinhedos.

Para Mariani, esse comportamento pessimista é uma das explicações para a saída dos jovens da colônia em busca de oportunidades na cidade.

– Meu filho sempre ouviu essa reclamação toda. Ele devia pensar assim: “Meu pai trabalha como um condenado e só reclama, tem pouca terra, pouca parreira.” Por isso, ele queria estudar e ir embora – pondera.

Mariani prossegue em sua argumentação:

– Eu comecei a ver no meu filho um comportamento de quando eu era jovem. Me formei no Instituto Federal em Bento Gonçalves, no curso técnico de enologia, em 1989. Vim para casa e disse: “Vocês estão trabalhando da forma errada. Vocês têm de pensar diferente.” Meu pai respondeu: “Te paguei o estudo até ontem, então vai ser feliz, mas não aqui, né?”

O conflito de gerações só intensificou a saída dos jovens, acredita Mariani. Depois dessa discussão com o pai, o jovem Mariani seguiu seu rumo, tentando a vida na cidade. Anos mais tarde, de volta à colônia, colhendo uvas e fazendo vinhos orgânicos, conheceu a Escola Família Agrícola, em Santa Cruz do Sul. E a partir disso, entendeu que haveria esperança na sucessão das propriedades, estabelecendo pontes entre gerações por meio da educação. 

Entre 2010, quando conheceu o funcionamento da escola, até 2013, ano da abertura da unidade da Serra, foi preciso limpar bem o terreno pedregoso de dificuldades para a implantação da instituição. Atualmente, a  Escola Família Agrícola (EFASerra) está localizada no interior de Caxias do Sul e já formou 51 alunos. Antes de colocar o projeto em ação, foi preciso realizar uma pesquisa diagnóstico com o perfil desse adolescente e suas expectativas para o futuro. Responderam ao questionário alunos de 20 municípios da região.

– A pesquisa apontou que 98% dos jovens do meio rural não tinham intenção em ficar na colônia – recorda Mariani.

Sete anos depois da inauguração da escola, o agricultor sente-se orgulhoso em revelar a inversão do cenário.

– Atualmente, 96% dos nossos alunos estão trabalhando na propriedade da família e entenderam a oportunidade que têm, porque conheceram a realidade, viram que têm perspectiva – avalia Mariani.

Expectativa e Realidade
Mariani viu essa boa semente frutificar em sua casa. Ele e a esposa Salete Arruda, 53, já tinham perdido a esperança de que os filhos Jorge Junior Mariani, 21 e Júlia Mariani, 17, quisessem permanecer trabalhando na propriedade da família. Hoje, a Orgânicos Mariani diversificou os produtos, está em ampliação, vislumbra atrair mais turistas, aproveitando sua excelente localização juto ao Vale dos Vinhedos.

Tudo isso porque o patriarca não descansou, de sol a sol, até ver concretizado o sonho da EFASerra, que tem contribuído intensamente na formação dos jovens agricultores, que são estimulados pelos professores a compreender tudo o que ocorre nas propriedades familiares, além de desenvolver novas iniciativas produtivas, de diversificação, manejo e tecnologia.

Jorge entrou na escola aos 14 anos, e quando saiu, aos 17, disse que um novo mundo havia se aberto diante dos seus olhos. 

– Vim para casa com outro olhar, com vontade de trazer conhecimento técnico para evoluirmos. Começamos a diversificar, a plantar tomates e fazer molhos orgânicos, ampliando as fonte de renda da propriedade. 

Atualmente cursando o sétimo semestre de Agronomia no Instituto Federal,  diz que não pretende mais sair da colônia. Esse é o mesmo pensamento da sua irmã, a Júlia, que aos 17 anos está estudando enologia, o mesmo curso que o pai já fez.

– Gosto bastante da enologia. No futuro, quero fazer vinhos finos e espumantes orgânicos.

Mariani está feliz não apenas por ver a sua propriedade com perspectivas de futuro, mas por ter semeado educação, que, na sua visão, deveria ser uma profissão melhor reconhecida no Brasil. O melhor exemplo é o de quem faz, é por isso que o agricultor sente orgulho de citar os cursos de cada um, em sua casa:

–  Minha esposa é formada em administração de empresas, eu sou enólogo, o guri é agrônomo e a guria, logo mais será enóloga. Aqui é tudo fera _ diverte-se, enquanto acomoda melhor o chapéu na cabeça, tentando disfarçar a emoção.

Continue lendo: http://tempuri.org/tempuri.html

Por Marcelo Mugnol
Fonte: Gaúcha ZH

Nova geração da agricultura familiar encara dificuldades para continuar missão dos pais
A agricultura familiar envolve o trabalho de 10 milhões de pessoas no Brasil e é responsável por movimentar R$ 107 bilhões na economia, o que corresponde a 23% da toda a produção agropecuária do país.

O setor é formado por pequenos produtores rurais que, além de plantarem para o seu próprio sustento, levam comida fresca e saudável a outras famílias, pois produzem 60% das hortaliças que vão para as feiras e mercados.

Os dados são do último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), referentes ao ano de 2017.

Embate de gerações
É comum nesta atividade que a produção agrícola ou pecuária tenha começado com os bisavós, avós e pais dos pequenos agricultores.

No processo de sucessão familiar, a nova geração costuma, geralmente, propor novas ideias para levar mais eficiência à propriedade. Nem sempre a "velha guarda" aceita. Mas, com o tempo, as mudanças vão acontecendo.

No entanto, muitos jovens agricultores do país acabam esbarrando em outros entraves, como a dificuldade do acesso ao crédito e a falta de infraestrutura logística e de conectividade.

Veja mais: http://tempuri.org/tempuri.html

Por Paula Salati
Fonte: G1





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